No dia 31 de março de 2026, submeti um trabalho ao XVIII CONFICT / XI CONPG, dentro do eixo “Fome zero, Saúde e Bem-estar”. O título segue o formato acadêmico: Inteligência Artificial, Gamificação Geolocalizada e Dados do SUS na Análise de Vulnerabilidade em Saúde no Contexto das Mudanças Climáticas. Mais do que um marco formal, essa submissão representa a organização de uma tese que já vinha sendo construída na prática.
A base dessa reflexão é simples: a maior parte dos problemas de saúde não começa no hospital. Eles se formam antes, no território, nas condições de vida, no comportamento cotidiano e no contexto ambiental. No entanto, o modelo predominante ainda é reativo, entrando em ação quando o problema já está instalado e o custo — humano e financeiro — já aumentou.
Ao longo da construção da FitQuestGo e da SyVtek, essa limitação ficou evidente. O sistema funciona para tratar, mas tem pouca capacidade de antecipar. A partir disso, surgiu uma pergunta central: é possível identificar riscos em saúde antes que eles se transformem em casos mais graves?
Parte da resposta está nos dados. O Brasil possui, por meio do SUS, uma das maiores bases públicas de saúde do mundo. Esses dados oferecem um retrato importante da realidade, mas ainda são utilizados majoritariamente para análises retrospectivas. Ao mesmo tempo, existe uma camada pouco explorada: o comportamento em tempo real. A forma como as pessoas se deslocam, interagem com o território e vivem sua rotina cotidiana traz sinais relevantes, mas raramente integrados à análise de saúde.
Quando essas duas dimensões são combinadas — dados estruturados e comportamento no território — surge uma nova possibilidade de leitura. Deixa-se de observar apenas eventos isolados e passa-se a compreender padrões. Esses padrões permitem identificar contextos de risco e, principalmente, antecipar movimentos antes que se consolidem em demandas mais complexas para o sistema.
A FitQuestGo atua nesse ponto ao utilizar gamificação geolocalizada como forma de engajar pessoas e, ao mesmo tempo, gerar dados de comportamento. As interações passam a produzir sinais que, quando analisados em conjunto, ajudam a revelar dinâmicas do território que antes eram invisíveis. Já a SyVtek organiza essa camada de informação, conectando diferentes fontes e transformando dados em inteligência acionável para tomada de decisão.
Esse cenário ganha ainda mais relevância quando incorporamos o impacto das mudanças climáticas. Eventos extremos, variações ambientais e alterações no clima têm efeitos diretos sobre a saúde, mas não atingem todos da mesma forma. Populações mais vulneráveis são também as mais expostas, o que reforça a importância de entender o território e suas dinâmicas.
A submissão do trabalho ao evento representa, portanto, a formalização dessa abordagem. Independentemente da aprovação, o principal avanço está na consolidação de uma linha de pensamento que busca reposicionar o papel da saúde: menos focado em reação e mais orientado à antecipação.
Essa mudança não é apenas tecnológica, mas de lógica. Significa atuar antes da internação, antes do agravamento e antes da sobrecarga do sistema. No fim, trata-se de reconhecer que a vulnerabilidade em saúde se forma antes do hospital — e que é nesse momento que existe maior oportunidade de agir.